segunda-feira, 28 de março de 2016

Os Custos Humanos do Colapso Econômico e a Respectiva Alternativa

por Dada Maheshvarananda

O editorial do New York Times considera a situação actual como "a mais assustadora queda-livre econômica que o mundo testemunhou desde 1929,” referindo-se à Grande Depressão que causou grande sofrimento a milhões de pessoas. O sentimento é repetido por centenas de economistas, banqueiros e negociantes de renome, cujas opiniões são citadas diariamente, enquanto se esforçam por explicar as repercussões econômicas ao público em geral. Porém, ninguém é capaz de prever de forma segura o nosso futuro econômico.

O governo dos EUA primeiro tentou safar-se e depois, seguindo o exemplo da Grã-Bretanha, da França, da Itália e da Espanha, começou a assumir o controle de algumas das maiores instituições financeiras. Quantos milhares de milhões têm eles? Claro que a resposta é que já possuem mais do que 10 trilhões de dólares da dívida nacional!

Os Custos Humanos

Os custos humanos deste colapso econômico estão apenas começando a se fazer sentir. Mais de um milhão de cidadãos norte-americanos perderam as suas casas nos últimos dois anos e estima-se que mais um milhão venham a perder as suas habitações nos próximos 12 meses. Contudo, o governo do americano continua a compensar mais os proprietários ricos por custos com hipotecas, através de deduções de impostos mais elevadas, do que os proprietários mais pobres.

Os cidadãos dos EUA perderam dois trilhões de dólares em fundos de pensões, o que representa cerca de 20% do seu valor desde o ano passado, reduzindo o rendimento de todos e forçando muitos trabalhadores mais velhos a continuar a trabalhar até aos setenta anos de idade. Inúmeros pequenos investidores estão perdendo as suas poupanças.

O mercado credor paralisado, que é muito mais grave do que acentuadas quedas de ações, irá forçar as empresas por esse mundo afora, que se vêem impossibilitadas de contrair empréstimos, a despedir trabalhadores, e o desemprego irá aumentar.

O mercado bolsista russo caiu cerca de dois terços desde maio. Por isso, a crise financeira global limpou aproximadamente um trilhão de dólares em riqueza por todo o país.

A própria Islândia está em decadência. O Primeiro-Ministro Geir Haarde alertou para a ameaça da “bancarrota nacional”. O governo tomou posse dos três principais bancos para impedir a sua falência, e a unidade monetária já havia perdido metade do seu valor antes que a sua comercialização tivesse sido suspensa. O país procura desesperadamente um empréstimo de emergência da Rússia ou do Fundo Monetário Internacional (FMI). Porém, a aceitação das duras políticas estruturais de ajuste do FMI com vistas a restaurar a estabilidade fiscal e monetária irá afetar a todos, o que é um revés para a economia da ilha, que na última década tem sido relativamente próspera.

Consumismo e Ganância

A ganância é a busca excessiva e egoísta da riqueza ou de outros bens materiais, sem preocupação se as nossas ações privam os outros de necessidades. Em vez de controlar este instinto, o capitalismo desregulado encoraja-o. Alguns defensores do capitalismo de mercado livre vão até ao ponto de afirmar que a ganância deveria ser considerada uma característica positiva porque a corrida para aumentar os lucros impulsiona a economia global. Como dizia Gordon Gekko, a personagem do filme Wall Street, “A ganância …. é uma coisa boa!”

O colapso foi causado em grande parte por grandes companhias que gastam centenas de milhões de dólares em campanhas publicitárias para fazer com que o endividamento pareça desejável e seguro. As suas sofisticadas campanhas através de anúncios na mídia e no nosso endereço electrônico dirigem-se a todos os grupos etários, desde os adolescentes até aos mais idosos. A maior companhia de emissão de cartões de crédito lançou a campanha “A Vida Exige Visa”, a MasterCard uma outra que dizia “Sem Preço” e o Citybank ensinou a “Viver Suntuosamente”. O objectivo astucioso de cada uma destas campanhas era eliminar os sentimentos negativos em relação à contracção de dívidas. O director criativo da campanha do MasterCard, Jonathan B. Cranin, explica, “Um dos truques do negócio dos cartões de crédito é que as pessoas têm uma culpa intrínseca com o gasto. O que queremos é que as pessoas se sintam bem com o que compram”.

Isto torna-se ainda mais incorrecto porque os que emprestam dinheiro aproveitam-se das pessoas que precisam de empréstimos para pagar cuidados de saúde e outras necessidades. Para extorquir mais lucros dos que pedem emprestado, as empresas de cartões de crédito dos EUA aumentaram as taxas de juros de 17.7% em 2005 para 19.1% o ano passado, uma diferença que lhes dá milhares de milhões de dólares em lucros extra. A média de multas por atrasos no pagamento subiu de menos que 13 dólares em 1994 para 35 dólares em 2007, e as comissões cobradas quando os clientes excedem os seus limites de crédito mais do que duplicaram, de 11 dólares para 26 dólares por mês.

As lucrativas práticas de empréstimos destes negociantes de dívidas conduziram milhões de norte-americanos à beira do precipício  jovens e idosos, ricos e pobres. Contudo, em 2005 a legislação sobre a falência foi alterada. Esta legislação, proposta pelo presidente Bush e que passou pelo Congresso através das empresas de serviços financeiros, torna mais difícil para os consumidores com rendimentos modestos escaparem das suas dívidas por meio da falência. As novas leis encorajam mais empréstimos imprudentes por parte das instituições financeiras, porque podem obrigar mais facilmente os pobres endividados a pagar.

Estes tipos de práticas, que originaram lucros recorde para muitos bancos, abalaram o sistema financeiro mundial até aos seus alicerces. Como um crescente número de pessoas não cumprem com os seus pagamentos, os bancos têm registrado bilhões em perdas, esmagando os seus acionistas. À medida que cada banco se apercebe de que está na posse de créditos podres, uma desconfiança cada vez maior vai tomando lugar entre as instituições receosas do número de créditos podres que os outros bancos possuem.

Economia Global vs. Economia Local

A solução para o colapso econômico global deveria ser a formação de economias locais. O primeiro passo crucial de qualquer economia humanista é providenciar as necessidades básicas de vida para todos: comida e água pura, roupa, habitação, educação e assistência médica. Os seres humanos necessitam destas para realizar as suas potencialidades individuais, desenvolver-se culturalmente, atingir a realização interior, que muitos atualmente consideram como objectivos de vida mais elevados. Que mundo maravilhoso seria aquele em que ninguém no planeta tivesse que se preocupar com a obtenção de dinheiro suficiente para comprar comida, roupa, habitação, educação e assistência médica para si ou para a sua família!

Em segundo lugar, as atuais economias centralizadas deveriam ser descentralizadas em regiões economicamente auto-suficientes. As regiões seriam definidas por condições geográficas e pela herança cultural, língua, problemas econômicos e interesses dos seus habitantes. Estas bio-regiões iriam decidir o seu futuro econômico desde a base, com o planejamento surgindo das comunidades e apoiado por políticas do governo central.

Terceiro, cada região econômica deveria também ser repartida em “blocos” ou condados menores, que iriam providenciar o nível essencial de planejamento econômico. A área de um condado é suficientemente pequena para os urbanistas perceberem todos os seus problemas; os líderes locais seriam capazes de resolver os problemas de acordo com as prioridades locais; o planejamento seria mais prático e eficiente e daria resultados rápidos e positivos.

Quarto, acabar com a dependência do petróleo através de um rejuvenescimento da agricultura local e da concretização da auto-suficiência em comida, medicamentos e energia. A importância do emprego rural e um nível de vida adequado para reduzir as migrações internas e externas é também fundamental.

Cada uma destas soluções faz parte da Teoria da Utilização Progressiva ou Prout, que propõe uma economia dinâmica de pessoas, pelas pessoas e para as pessoas. Ao rejeitar a obtenção de lucro como fim último da economia, Prout fundamenta a sua política econômica na satisfação das necessidades reais das pessoas. Para a sua concretização, Prout propõe um sistema econômico em três camadas.

Para preservar o espírito criativo e inovador do capitalismo, mas evitar a sua destruição, explorando o impacto do capital que ignora os custos sociais e a degradação do ambiente, o setor privado deveria ser de pouca envergadura.

A segunda camada da economia de Prout é formada por cooperativas. Isto garante a democracia econômica, uma diminuição da alienação e uma mais justa distribuição de riqueza. O objetivo das cooperativas não é o lucro a qualquer custo, mas a satisfação das necessidades reais da comunidade e a concretização do bem-estar de todos. Os membros participam na tomada de decisões e determinam o futuro econômico da sua comunidade.

A última camada é constituída pelas indústrias que têm uma importância estratégica e que são demasiado grandes e demasiado complexas para serem geridas de forma eficiente por uma cooperativa. Por exemplo, a energia, o aço, as telecomunicações, as companhias aéreas, etc., deveriam ser do Estado e geridas por conselhos eleitos pelo interesse público aos níveis nacional ou estadual. Estas indústrias-chave deveriam ser dirigidas numa base não lucrativa, mas sem prejuízos, servindo a todas as pessoas do país.

O Banco Central de cada país é um exemplo de uma indústria-chave. No entanto, todos os outros bancos deveriam ser associações de crédito cooperantes, emprestando as poupanças ao comércio local, às cooperativas e aos proprietários de casas.

Uma economia local organizada desta forma iria ser baseada no ser humano, resistente às flutuações do mercado global e à inflação, e capaz de atingir o emprego total das pessoas. Não é este tipo de economia que queremos?



Dada Maheshvarananda é um monge de yoga, ativista e escritor. É o autor de After Capitalism: Prout's Vision for a New World com prefácio de Noam Chomsky, traduzido em 10 línguas. É director do Prout Research Institute da Venezuela. Veja www.priven.org ou escreva-lhe para maheshvarananda@prout.org.

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